Em tempos de solidão, a grande “sede” de relações

“A vida espiritual é tensão e travessia, mas não se chega mais, se aprende sempre, e se cresce juntos, sem deixar nenhum morrer sozinho” (Cardeal José Tolentino Mendonça)

Me utilizo das palavras do Cardeal José Tolentino, para escrever um pouco sobre uma experiência que estamos vivendo neste período aqui na Vila Maria. Um percurso de escuta e encontro, em que cada pessoa pode encontrar-se um pouco mais com a sua verdade mais íntima. Descobrir-se parte de um grupo, revelar as suas dores, angústias e alegrias. Encontrar um lugar de silêncio, não só exterior, mas também interior, para alcançar a tão sonhada paz do coração. Parece uma utopia, mas não é, isso é possível, dar tempo em meio ao nosso trabalho para encontrar-nos conosco mesmos e com o Senhor da nossa vida. Os colaboradores do CMEI têm está oportunidade durante este período, ter um tempo para refletir sobre sua vida e o tempo tão desafiador que nos encontramos. É impressionante perceber a grande “sede” que cada um tem de verdadeiras relações, de ter um lugar onde se posso confiar, falar e ouvir. Descobrir que como eu o outro também tem seus problemas, e na medida que o conheço me é mais fácil acolhê-lo.

Em nossa humanidade tão corrida e tão competitiva, onde importa a eficiência, o lucro, mais do que a qualidade de vida, é indispensável pararmos para refletir: Onde queremos chegar? O que estamos buscando? O que de fato vale apena fazer grandes sacrifícios? A nossa vida é única e as relações verdadeiras de amor, de amizade, companheirismo, de solidariedade são as únicas que permanecerão. Ter um lugar onde isso seja possível é a maior “sede” de nosso tempo, “sede” de verdadeiras relações, “sede” de coisas muito simples como dizer um bom dia, acolher o sorriso de alguém, sentir que se é de fato importante para alguém, muito mais que para si próprio. Essa é a marca que carregamos por sermos “imagem e semelhança de Deus”, só seremos felizes em uma vida doada, no amor que damos e recebemos. Concluo com o depoimento de uma grande pesquisadora e antropóloga Margaret Mead. Quando pediram a ela qual foi o primeiro elemento que constatou o surgimento da civilização, ela respondeu: “Um fêmur quebrado e depois curado”. Explicou que no reino animal, se você quebra uma perna, irá morrer. Não podes escapar dos perigos, ir até o rio para beber água, e buscar o alimento. Um fêmur quebrado que foi curado é a prova de que alguém deu o seu tempo para cuidar do outro, alguém ficou ao seu lado. Acredito que seja essa uma das lições que a pandemia tem nos trazido, o que de fato vale apena, perder o nosso tempo e dar a nossa vida. Somente amando e deixando-nos amar poderemos ser de fato felizes. 

Por Ir. Adriane Pott 

 

Pensamento do dia:

Eu sou a Mãe do Amor! Grava-me como selo no teu coração.

(Bv. Pe. Zefirino Agostini)